Em 7 de outubro de 1986, o Slayer lançou Reign in Blood, um disco que em menos de meia hora redefiniu a ideia de velocidade, agressividade e brutalidade dentro do metal. Quarenta anos depois, seus 28 minutos e 58 segundos continuam sendo uma referência para gerações de músicos que vieram depois. O álbum não apenas consolidou o Slayer como uma das forças centrais do thrash metal: sua combinação de riffs extremos, bateria vertiginosa, vocais agressivos e letras perturbadoras ajudou a abrir caminho para o nascimento e a expansão do death metal.

O disco chegou depois de Show No Mercy (1983) e Hell Awaits (1985), ambos lançados pela Metal Blade. Enquanto Hell Awaits apresentava composições mais longas, mudanças de andamento e uma atmosfera mais complexa, Reign in Blood foi concebido de maneira muito mais direta. A ideia era eliminar excessos e transformar cada música em um ataque concentrado.
A mudança fundamental aconteceu quando Rick Rubin entrou em cena. Conhecido principalmente pelo trabalho com artistas de hip-hop através da Def Jam, Rubin enxergou potencial no Slayer e decidiu trabalhar com a banda. As gravações começaram em junho de 1986 no Hit City West, em Los Angeles, com Andy Wallace como engenheiro. A produção buscou um som mais seco, claro e contundente, reduzindo a quantidade de reverberação presente nos trabalhos anteriores.
A formação era a clássica: Tom Araya nos vocais e baixo, Kerry King e Jeff Hanneman nas guitarras e Dave Lombardo na bateria. A combinação dos dois guitarristas criou uma parede de riffs e solos dissonantes, enquanto Lombardo desenvolveu uma abordagem de bateria que se tornou uma das marcas do disco. Sua velocidade e precisão, especialmente nas passagens de bumbo duplo, seriam fundamentais para músicos das gerações seguintes.
A abertura não poderia ser mais controversa. “Angel of Death”, escrita por Jeff Hanneman, aborda os experimentos e crimes cometidos pelo médico nazista Josef Mengele no campo de concentração de Auschwitz. A música provocou acusações e debates sobre o interesse do Slayer pelo nazismo, embora a banda tenha negado qualquer simpatia ideológica e apresentado a composição como uma narrativa sobre acontecimentos históricos. A controvérsia acabou acompanhando o álbum durante décadas.
Depois do impacto inicial de “Angel of Death”, o álbum praticamente não oferece descanso. “Piece by Piece” reduz tudo a pouco mais de dois minutos. “Necrophobic”, com apenas 1min40s, é uma explosão de velocidade. “Altar of Sacrifice” mergulha no imaginário ocultista, enquanto “Jesus Saves” trabalha a crítica religiosa. “Criminally Insane”, “Reborn” e “Epidemic” mantêm a sucessão de riffs rápidos, mudanças abruptas e solos caóticos.

“Postmortem” introduz uma atmosfera diferente antes de desembocar em “Raining Blood”, composta por Hanneman e King. A introdução atmosférica, os riffs memoráveis e a construção crescente transformaram a faixa no encerramento perfeito para o álbum. A música se tornou uma das composições mais reconhecíveis da história do metal e permanece como presença obrigatória nos shows do Slayer.
ficha técnica
Artista: Slayer
Álbum: Reign in Blood
Lançamento: 7 de outubro de 1986
Duração: 28min58s
Gravadora: Def Jam Recordings
Produção: Rick Rubin
Engenharia de som: Andy Wallace
Masterização: Howie Weinberg
Local de gravação: Hit City West, Los Angeles
Formação: Tom Araya — baixo e vocais; Kerry King — guitarra; Jeff Hanneman — guitarra; Dave Lombardo — bateria.
as dez faixas
- “Angel of Death” — 4:51
- “Piece by Piece” — 2:02
- “Necrophobic” — 1:40
- “Altar of Sacrifice” — 2:50
- “Jesus Saves” — 2:54
- “Criminally Insane” — 2:22
- “Reborn” — 2:11
- “Epidemic” — 2:23
- “Postmortem” — 3:27
- “Raining Blood” — 4:17.
A estrutura do álbum é parte fundamental de sua identidade. Com exceção das faixas de abertura e encerramento, todas as músicas têm menos de três minutos. Não existe espaço para introduções prolongadas ou passagens desnecessárias. O Slayer entra, acelera, destrói tudo e desaparece. Essa concisão ajudou a transformar Reign in Blood em um modelo para inúmeras bandas extremas.
O impacto também ultrapassou o thrash. A velocidade de Lombardo, os riffs de Hanneman e King e a atmosfera sombria do disco seriam absorvidos por músicos que estavam desenvolvendo o death metal nos Estados Unidos e na Europa. A influência também alcançaria outras vertentes extremas, tornando o álbum uma espécie de ponte entre o thrash dos anos 1980 e o underground que explodiria na década seguinte.
Comercialmente, o disco chegou ao Top 100 americano e posteriormente recebeu certificação de ouro nos Estados Unidos, um resultado expressivo para um trabalho tão extremo. Mais importante, porém, foi sua permanência. Reign in Blood deixou de ser apenas um lançamento de 1986 e passou a funcionar como documento de uma época em que o thrash metal estava deixando o underground sem abandonar sua ferocidade.
O impacto continuou décadas depois. Em 2004, o Slayer apresentou o álbum inteiro ao vivo no show registrado em Still Reigning, incluindo a famosa chuva de sangue artificial durante “Raining Blood”.
Agora, quatro décadas depois do lançamento, o próprio Slayer voltou a apresentar Reign in Blood na íntegra em shows especiais de 2026. O álbum que nasceu em Los Angeles em 1986 continua sendo executado como uma obra completa, mostrando que sua estrutura curta e brutal ainda funciona no palco.
Quarenta anos depois, Reign in Blood permanece congelado naquele ponto exato em que o thrash metal encontrou sua forma mais rápida, seca e agressiva. Dez músicas. Menos de 29 minutos. Nenhum excesso. Apenas Slayer.

