Conrad Thomas Lant, conhecido mundialmente como Cronos, morreu nesta quinta-feira, 1º de outubro de 2026, aos 63 anos. A morte do vocalista e baixista do Venom foi anunciada pela própria banda, que destacou o papel central do músico durante mais de quatro décadas de história. A causa da morte não foi divulgada. Em comunicado, o grupo lembrou que a voz, o baixo e a visão artística de Cronos estiveram no centro do Venom desde seus primeiros registros. Seu filho Nathan também publicou uma mensagem agradecendo aos fãs pela trajetória construída ao lado do pai.

Nascido em 15 de janeiro de 1963, em Londres, Lant cresceu em Newcastle, no norte da Inglaterra, cidade que se tornaria o berço do Venom. Sua formação musical aconteceu durante um período particularmente fértil do rock britânico. Black Sabbath, Deep Purple, Led Zeppelin, Judas Priest e Motörhead estavam entre as referências que ajudaram a formar seu gosto musical, enquanto o punk também começava a demonstrar que agressividade, velocidade e atitude poderiam ser tão importantes quanto virtuosismo. O próprio Cronos contou posteriormente que foi profundamente influenciado pelo som pesado do Black Sabbath e pelo impacto visual e comportamental de outras bandas da época.
Antes de se tornar Cronos, Lant era apenas mais um adolescente interessado em formar uma banda. Em 1979, entrou no grupo que posteriormente seria conhecido como Venom inicialmente como guitarrista. A formação foi se modificando até chegar ao trio que entraria para a história: Cronos no baixo e vocal, Jeff “Mantas” Dunn na guitarra e Tony “Abaddon” Bray na bateria. A mudança de Lant para o baixo aconteceu de maneira quase circunstancial. O baixista Alan Winston deixou o grupo pouco antes de um show, e Lant assumiu o instrumento para que a apresentação pudesse acontecer. Quando o vocalista Clive “Jesus Christ” Archer deixou a banda em 1981, Lant também assumiu definitivamente os vocais.

A escolha dos nomes artísticos fazia parte da construção da identidade do grupo. Jeff Dunn tornou-se Mantas, Tony Bray adotou o nome Abaddon e Conrad Lant passou a ser Cronos. Em entrevista à Metal Hammer, ele explicou que a escolha estava relacionada ao seu signo de Capricórnio e ao planeta Saturno, associado na mitologia grega a Cronos. Não era apenas uma mudança de nome: o trio estava criando uma identidade visual e conceitual que rompia deliberadamente com o padrão das bandas tradicionais da New Wave of British Heavy Metal.
O Venom surgiu em um momento em que o heavy metal já tinha uma história consolidada, mas ainda não havia desenvolvido completamente aquilo que posteriormente seria chamado de metal extremo. O grupo levou velocidade, distorção, ruído e agressividade para um novo território, combinando influências do heavy metal com elementos do punk e do Motörhead. A estética também era radical. Cruzamentos de símbolos religiosos, referências ao satanismo, demônios, morte e uma postura deliberadamente provocadora faziam parte do projeto. Cronos explicou posteriormente que boa parte daquela temática funcionava como provocação e construção artística, mais do que como uma declaração religiosa literal.

Em 1981, o Venom lançou Welcome to Hell, álbum que apresentou ao público uma sonoridade que ainda parecia rudimentar para os padrões de produção da época, mas justamente por isso carregava uma violência incomum. O disco reunia músicas como “Sons of Satan”, “In League with Satan”, “Live Like an Angel (Die Like a Devil)” e “Welcome to Hell”, estabelecendo as bases para aquilo que a banda desenvolveria no trabalho seguinte. Anos mais tarde, Cronos chegou a definir Welcome to Hell como uma espécie de coleção de demos, especialmente quando comparado ao álbum que viria depois.

Esse álbum seguinte foi Black Metal, lançado em 1982. O título acabaria sendo muito maior do que uma simples denominação para um disco. A expressão passou a identificar uma vertente inteira do metal extremo. Musicalmente, o Venom daquele momento ainda não correspondia ao que seria chamado de black metal nas décadas seguintes. Não havia a estética sonora do black metal norueguês, por exemplo. O que existia era uma combinação de heavy metal, punk, velocidade, distorção, letras ocultistas e uma imagem que apresentava o metal como algo mais agressivo, sombrio e transgressor.

A importância histórica de Black Metal está justamente nessa capacidade de abrir uma porta. O disco influenciou diretamente músicos que posteriormente participariam da formação do thrash metal e, mais tarde, do death e do black metal. Metallica e Slayer estão entre os grupos que tiveram contato com a música do Venom ainda no início de suas carreiras. Na década seguinte, nomes da cena extrema europeia, especialmente na Escandinávia, passariam a tratar o Venom como uma referência fundamental.
Em 1984, o Venom lançou At War with Satan, um trabalho que mostrou que Cronos e seus companheiros não pretendiam simplesmente repetir a fórmula dos dois primeiros discos. A faixa-título ocupava praticamente todo um lado do álbum e apresentava uma composição muito mais longa e ambiciosa. No ano seguinte, Possessed completaria a primeira grande sequência da banda. Esses quatro trabalhos — Welcome to Hell, Black Metal, At War with Satan e Possessed — formam o núcleo mais importante da primeira fase do Venom e são constantemente citados em retrospectivas sobre a formação do metal extremo.

A história, entretanto, não foi marcada apenas por sucesso e influência. A relação entre os integrantes do Venom se deteriorou e a formação clássica acabou se desfazendo. Cronos deixou o grupo no final dos anos 1980, enquanto Mantas e Abaddon continuaram trabalhando sob o nome Venom. Durante esse período, Cronos criou sua própria banda, também chamada Cronos, e lançou trabalhos que exploravam uma sonoridade diferente daquela associada ao Venom. Entre os lançamentos estão Dancing in the Fire, de 1990, e Rock ’n’ Roll Disease, de 1991.
O afastamento aconteceu justamente antes de uma das maiores transformações da música extrema. Enquanto Cronos trabalhava nos Estados Unidos com sua própria banda, a cena underground europeia começava a desenvolver uma nova interpretação do black metal. Mayhem, Burzum, Emperor e outros grupos noruegueses e escandinavos passaram a citar o Venom como uma de suas referências. O título Black Metal havia se transformado em nome de um movimento que estava surgindo uma década depois do lançamento do disco.
Cronos acompanhou esse processo à distância. Em uma entrevista concedida anos mais tarde, contou que ouvir bandas como Mayhem e Burzum o fez perceber novamente a dimensão que o Venom havia alcançado. A experiência também o levou a reconsiderar a própria banda. Em 1995, Cronos voltou a trabalhar com Mantas e Abaddon, dando início a uma nova fase que resultaria no álbum Cast in Stone, de 1997. O reencontro, porém, não conseguiu reproduzir a dinâmica da formação original. O próprio Cronos reconheceu posteriormente que aquela química específica dos primeiros anos não poderia ser recuperada.
A partir daí, Cronos passou a ser o principal elo permanente entre o Venom histórico e o Venom contemporâneo. As mudanças de integrantes continuaram, enquanto Mantas e Abaddon deixaram definitivamente de fazer parte da banda. Cronos permaneceu como vocalista, baixista, compositor e principal responsável pela continuidade do nome. Em 2006, o grupo lançou Metal Black, título que também funcionava como uma referência direta ao disco que havia ajudado a batizar o gênero décadas antes. Vieram depois Hell, Fallen Angels, From the Very Depths e Storm the Gates, mantendo o Venom ativo enquanto grande parte de seus contemporâneos já havia encerrado suas atividades ou reduzido consideravelmente a produção.

A formação que acompanhou Cronos durante boa parte desse período reuniu o guitarrista Stuart “Rage” Dixon e o baterista Danny “Danté” Needham. Com eles, o Venom continuou excursionando e lançando material novo, mostrando que Cronos não estava interessado apenas em administrar o legado de uma banda histórica. Ele continuava trabalhando como músico e compositor.
Esse aspecto ganhou uma dimensão especialmente simbólica em 2026. Em maio deste ano, o Venom lançou Into Oblivion, seu 16º álbum de estúdio. Cronos participou do trabalho nos vocais, baixo e composição, mantendo-se ativo até os últimos meses de sua vida. O disco acabou sendo seu último lançamento de estúdio, embora nada em seu processo de produção indicasse que seria encarado como um capítulo final.
Cronos também participou de trabalhos fora do Venom ao longo da carreira. Sua voz e seu baixo apareceram em projetos e gravações de outros músicos, incluindo participações relacionadas a Warfare, Massacre, Cradle of Filth, Probot e HammerFall. Essas colaborações ajudaram a demonstrar como sua figura havia ultrapassado os limites de uma única banda e se tornado uma referência reconhecida dentro de diferentes gerações do metal.
Mais importante, porém, foi a influência indireta. O Venom ajudou a criar um ambiente no qual músicos jovens passaram a entender que não precisavam reproduzir o modelo tradicional do heavy metal. A técnica poderia ser substituída pela velocidade; a produção sofisticada, pela agressividade; a imagem convencional, por uma estética extrema; e a aceitação do mercado, pela independência do underground. Foi nesse espaço que thrash, death e black metal encontraram parte de suas primeiras referências.

Por isso, a importância de Cronos não pode ser medida apenas pela discografia do Venom. Sua contribuição está também na quantidade de cenas, bandas e músicos que surgiram depois carregando alguma parte daquela linguagem. O Venom foi uma das bandas que ajudaram a transformar o metal extremo em uma cultura própria, na qual música, capas, logotipos, roupas, zines, fitas, shows e uma estética visual agressiva passaram a funcionar como partes de um mesmo universo.
A morte de Cronos encerra a trajetória de um dos personagens mais importantes da primeira geração do metal extremo. Ele não foi apenas o vocalista do Venom. Foi o músico que assumiu o baixo quando a banda precisava continuar, tomou para si os vocais quando o grupo perdeu seu cantor, ajudou a construir a identidade visual e conceitual da formação clássica e permaneceu ligado ao nome durante mais de quatro décadas. Foi também o integrante que continuou carregando o Venom quando a formação original já havia desaparecido.
Em 1º de outubro de 2026, Conrad “Cronos” Lant morreu aos 63 anos. Sua última passagem pelo estúdio havia acontecido poucos meses antes, em um novo álbum do Venom. A notícia encerra uma vida dedicada a uma das experiências mais radicais que o heavy metal produziu no início dos anos 1980. O homem por trás de Cronos não está mais aqui, mas os discos que ajudou a criar continuam ocupando um lugar central na história do gênero. Welcome to Hell e Black Metal continuam sendo documentos de uma época em que três músicos de Newcastle decidiram levar o peso, a velocidade e a provocação do heavy metal para um território ainda desconhecido. O resultado não foi apenas uma carreira. Foi uma das bases sobre as quais o metal extremo seria construído nas décadas seguintes.

